Dos remixes de baile funk que embalam desafios de dança no TikTok às camisetas estampadas com a bandeira do Brasil, a estética brasileira tomou conta das redes sociais. Mas é na economia digital erótica que esse fenômeno aparece de forma mais evidente: criadoras de conteúdo adulto como Sophie Rain, Aishah Sofey e Lexi Marvel, entre outras ligadas à chamada "Bop House", usam coreografias sensuais, mas dentro das regras das plataformas, para atrair engajamento e direcionar seguidores a seus links pagos. Com frequência, a trilha é um funk - ou algo que soa como um.
A sexualidade do funk e sua leitura fora do contexto
Nascido nas comunidades predominantemente negras e periféricas do Rio de Janeiro, o baile funk nunca escondeu sua relação com a sexualidade, seja nas letras, seja na dança. Essa abertura sempre o colocou no centro de pânicos morais no Brasil. Para o jornalista e etnomusicólogo Felipe Maia, há uma diferença importante entre a sexualidade expressa dentro de uma cultura e essa mesma cultura sendo sexualizada por um público cada vez mais distante de seu contexto original. "Existe uma fantasia e um fetiche em torno das mulheres brasileiras e latino-americanas, mas para muitas, o baile funk pode ser uma forma libertadora de se relacionar com o próprio corpo", afirma Maia, ponderando que o fenômeno também pode representar "uma sexualização que vai além do que é consensual".
Nem tudo que soa brasileiro é baile funk
Segundo Maia, boa parte das faixas usadas por criadoras como Sophie Rain está mais próxima do chamado phonk brasileiro - um som nascido na internet, que mistura funk nacional com o phonk de Memphis, frequentemente produzido por artistas fora do Brasil. Ele descreve esse fenômeno como uma espécie de "pastiche" musical: uma versão mediada pela internet da música brasileira, cada vez mais desconectada da cultura que a originou.
Esse processo de circulação ficou evidente no caso do produtor turco Ali Beats, de apenas 17 anos, radicado na Áustria. Um remix seu de inspiração funk com uma faixa da artista britânica PinkPantheress viralizou em 2024 e acabou parando nos vídeos de grandes criadoras do OnlyFans, incluindo Sophie Rain e Aishah Sofey. "Você pode criar algo no seu quarto, postar sem esperar muito, e de repente aquilo aparece em cantos completamente diferentes da internet", conta Ali, que afirma não produzir pensando em criadoras de conteúdo adulto específicas.
Quem lucra quando a cultura viaja
No ecossistema da economia erótica digital, os sistemas de moderação de plataformas como a Meta transformaram a autopromoção em um jogo de códigos: termos como "seggs" substituem palavras proibidas, enquanto coreografias funcionam como um tipo de sugestão visual - nada explicitamente sexual, mas também longe de ser neutro. Para Maia, a questão central não é exatamente apropriação cultural, mas dominação econômica e política: "O próprio baile funk nasce da nossa reapropriação do Miami Bass, do eletro e de vários outros gêneros. A questão aqui é quem detém o poder econômico."
Essa discussão carrega um peso histórico: no Brasil, o funk sempre precisou se defender da associação simplista entre sexualidade e criminalização, ligada à marginalização de comunidades negras e periféricas. Ali reconhece esse achatamento cultural também na produção internacional: "Acho que a internet está criando sua própria ideia do que soa 'brasileiro'", diz, destacando que o que hoje é rotulado como funk ou phonk brasileiro online representa apenas uma fração da riqueza musical do país.
O resultado, no limite, é uma caricatura sonora do Brasil - útil comercialmente, reproduzida à exaustão em edições de TikTok e feeds de conteúdo adulto. A internet encontrou valor real na fantasia que criou sobre o país. Resta saber se os músicos e comunidades que deram origem a essa cultura também são beneficiados por ela.