A contratação de Rafael Câmara pela Haas para a temporada 2027 da Fórmula 1 coloca o pernambucano em uma tradição que atravessa mais de cinco décadas do automobilismo brasileiro. Campeão da Fórmula Regional Europeia em 2024 e da Fórmula 3 em 2025, o piloto de 21 anos chega à categoria principal com dois títulos internacionais consecutivos, repetindo um traço presente nas trajetórias de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna e Gabriel Bortoleto. Os campeonatos mudaram e os caminhos até a F1 se multiplicaram, mas vencer nas categorias de acesso segue como credencial de peso.
A F3 Britânica como porta de entrada histórica
Durante décadas, a F3 Britânica foi a principal vitrine internacional para pilotos rumo à F1. Emerson Fittipaldi abriu o caminho em 1969, chamando a atenção da Lotus e estreando no ano seguinte - em 1972, tornou-se o mais jovem campeão mundial da história até então. José Carlos Pace seguiu trajetória parecida em 1970, assim como Nelson Piquet em 1978, ano em que também debutou na categoria máxima. Ayrton Senna venceu a disputa de 1983 contra Martin Brundle após uma campanha de 12 vitórias, abrindo caminho para a Toleman em 1984. Chico Serra, Maurício Gugelmin, Rubens Barrichello, Antônio Pizzonia, Nelson Piquet Jr. e Felipe Nasr completam a lista de dez brasileiros que, campeões da F3 Britânica, chegaram a largar em um GP de Fórmula 1.
F3000 e Fórmula Renault diversificaram o caminho
A partir dos anos 1980, a Fórmula 3000 Internacional ganhou relevância como etapa de preparação. Christian Fittipaldi venceu o título em 1991 e estreou pela Minardi no ano seguinte, enquanto Ricardo Zonta repetiu o feito em 1997, numa disputa apertada com Juan Pablo Montoya, antes de debutar pela BAR em 1999. Enrique Bernoldi conquistou a Fórmula Renault Europeia em 1996 e chegou à F1 em 2001, pela Arrows. Felipe Massa somou os títulos da Renault Europeia (2000) e da Euro F3000 (2001) antes de assinar com a Sauber em 2002 - uma rota diferente da F3000 Internacional tradicional. Pietro Fittipaldi, por sua vez, venceu a Fórmula V8 3.5 em 2017 e estreou justamente pela Haas, no GP de Sakhir de 2020.
Bortoleto e Câmara, símbolos da nova geração
Com a criação da Fórmula 2 em 2017 e da atual Fórmula 3 em 2019, o sistema de acesso passou a integrar diretamente os fins de semana de F1. Gabriel Bortoleto conquistou a F3 em 2023 e a F2 em 2024, ambas na primeira temporada disputada, garantindo vaga na Sauber em 2025. Câmara seguiu caminho semelhante: campeão da Fórmula Regional Europeia em 2024, venceu a F3 de 2025 pela Trident com uma etapa de antecedência, somando quatro vitórias e cinco poles - recorde da categoria. Em 2026, na F2 pela Invicta, lidera o campeonato após 12 etapas, com 207 pontos, três vitórias e cinco poles, ainda com chance de fechar a temporada como campeão antes da estreia na F1.
Nem todo campeão chegou à Fórmula 1
Vencer nas categorias de acesso nunca foi garantia de vaga na F1. Gil de Ferran foi campeão da F3 Britânica em 1992, testou com equipes da categoria, mas construiu carreira nos Estados Unidos, onde venceu duas vezes a CART e as 500 Milhas de Indianápolis de 2003. Mário Haberfeld (F3 Britânica, 1998) e Bruno Junqueira (F3000 Internacional, 2000) também não chegaram a disputar corridas oficiais de F1. O caso mais recente é o de Felipe Drugovich, campeão da F2 em 2022 e integrante do programa de desenvolvimento da Aston Martin, que participou de treinos livres e testes sem nunca largar em um GP.
Um currículo que une duas eras do automobilismo
A trajetória de Câmara mistura o perfil de campeões históricos, como Senna, Piquet e Fittipaldi, com o modelo moderno de formação, apoiado em categorias ligadas diretamente aos fins de semana de F1 e em programas de academia. Em 2026, o pernambucano somou testes com Ferrari e Haas, incluindo sessões em Portimão que pesaram na avaliação da equipe norte-americana. Um eventual título da F2 em 2026 reforçaria ainda mais o currículo antes da estreia, mas, mesmo sem esse terceiro troféu consecutivo, Câmara já reúne duas conquistas internacionais relevantes e passa a integrar uma tradição construída por diferentes gerações de pilotos brasileiros rumo à Fórmula 1.